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March 24, 2026· 8 min read

A Aposta Brasileira em Fertilizantes: A Dependência que Alimenta o Mundo e Deixa o País Sem Opções

Como o maior importador de fertilizantes do mundo não se preparou para a crise que viu chegando

O Brasil importa aproximadamente 85 por cento dos fertilizantes que utiliza. Esse único número define a posição do país em qualquer perturbação global no fornecimento de fertilizantes. Também define uma parcela significativa da segurança alimentar mundial, porque o Brasil é o maior exportador de soja, o segundo maior exportador de milho e uma fonte importante de açúcar, café e algodão. Quando a agricultura brasileira vacila, as cadeias globais de suprimento registram o impacto em poucos meses. A crise de fertilizantes de 2022 testou essa dependência. Quatro anos depois, quase nada mudou.

A Escala da Dependência

Os números não são ambíguos. O Brasil consumiu aproximadamente 45 milhões de toneladas de fertilizantes em 2023, tornando-se o quarto maior consumidor global, atrás de China, Índia e Estados Unidos. Dessa quantidade, a produção nacional cobriu apenas cerca de 15 por cento nas três principais categorias de nutrientes: nitrogênio, fósforo e potássio.

Para o potássio, a dependência é mais extrema. O Brasil importa mais de 95 por cento de suas necessidades de potássio, com Rússia e Belarus historicamente fornecendo cerca de 30 por cento desse total. Para fertilizantes nitrogenados, o país depende fortemente de importações do Oriente Médio, Norte da África e Rússia. Para fosfatados, a produção doméstica a partir de Mossoró e outras unidades cobre uma parcela maior, mas ainda fica aquém da demanda.

Esse perfil de importação significa que o Brasil está simultaneamente exposto a todas as principais regiões produtoras de fertilizantes. Uma perturbação na região do Mar Negro, no Golfo Pérsico ou no Norte da África atinge a agricultura brasileira diretamente. Em 2022, as três foram afetadas ao mesmo tempo.

O Que Aconteceu em 2022

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, o setor agrícola brasileiro enfrentou uma ansiedade imediata de abastecimento que ia além do preço. A questão não era apenas quanto o fertilizante custaria, mas se os volumes físicos chegariam.

As exportações russas de fertilizantes para o Brasil não foram formalmente sancionadas pelo governo brasileiro. O Brasil manteve sua relação comercial com a Rússia durante toda a crise, uma decisão guiada por pragmatismo agrícola e não por alinhamento geopolítico. Mesmo assim, complicações logísticas de frete, seguros e processamento de pagamentos criaram incerteza real.

Os preços de fertilizantes para agricultores brasileiros acompanharam o pico global. O preço da ureia nos portos brasileiros subiu de aproximadamente 1.200 reais por tonelada no início de 2021 para mais de 4.500 reais por tonelada no pico de 2022. MAP (fosfato monoamônico) e KCl (cloreto de potássio) seguiram trajetórias semelhantes. O aumento de custo foi absorvido de forma desigual. Operações de grande porte no Mato Grosso e Goiás tinham contratos e linhas de crédito para administrar o choque. Produtores menores no Cerrado e no Sul enfrentaram margens mais apertadas e, em alguns casos, reduziram as taxas de aplicação.

A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) reportou que os agricultores brasileiros gastaram aproximadamente 30 por cento a mais em insumos de fertilizantes na safra 2022-2023 em comparação com a temporada anterior. Esse aperto coincidiu com preços fortes de commodities para soja e milho, o que compensou parcialmente os custos mais altos. Se os preços das commodities não estivessem elevados, o impacto financeiro sobre os produtores teria sido significativamente pior.

O Plano Nacional de Fertilizantes

O governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) em 11 de março de 2022, aproximadamente duas semanas após a invasão russa. O momento não foi coincidência. O plano estabeleceu a meta de elevar a produção doméstica para cobrir 45 a 50 por cento da demanda nacional até 2050, ante cerca de 15 por cento.

O PNF identificou diversos caminhos: expandir a mineração doméstica de depósitos de potássio na região amazônica (particularmente o projeto Autazes no estado do Amazonas), aumentar a produção de fosfatados, desenvolver capacidade de fertilizantes nitrogenados vinculada aos ativos de gás da Petrobras e promover tecnologias de fixação biológica de nitrogênio, como inoculantes para soja.

O próprio cronograma de 2050 sinaliza a escala do desafio. Vinte e oito anos para mais que triplicar a produção doméstica não é uma resposta emergencial. É um plano de desenvolvimento industrial.

Até o início de 2026, o progresso foi limitado. O projeto de potássio de Autazes, operado pela Brazil Potash (anteriormente Potássio do Brasil), permanece em fase de licenciamento e financiamento. O licenciamento ambiental na Amazônia enfrenta obstáculos regulatórios e políticos substanciais. Nenhuma nova planta de fertilizantes nitrogenados em grande escala foi comissionada. A Petrobras, que operava três unidades de fertilizantes nitrogenados (unidades FAFEN) na Bahia, em Sergipe e no Paraná, havia desativado duas delas antes da crise, alegando inviabilidade econômica. A FAFEN-Bahia foi reativada em 2020, mas opera abaixo da capacidade.

Insumos biológicos mostraram mais avanço. O Brasil já é líder mundial no uso de inoculantes para soja, com a fixação biológica de nitrogênio substituindo uma parcela significativa do nitrogênio sintético para a produção de soja. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) promove essa tecnologia há décadas. Mas inoculantes funcionam para leguminosas, não para milho, cana-de-açúcar ou algodão, que ainda demandam nitrogênio sintético.

A avaliação é clara: o PNF produziu um documento, não uma transformação.

Por Que o Brasil Importa para o Mundo

A dependência brasileira de fertilizantes não é apenas um problema brasileiro. O país produz aproximadamente um terço da soja mundial e é o segundo maior exportador de milho. Essas culturas alimentam rebanhos na China, na Europa e no Oriente Médio. Uma perturbação na produção brasileira de soja se propaga pelas cadeias globais de proteína dentro de uma a duas safras.

Na safra 2022-2023, o Brasil produziu uma colheita recorde de soja de aproximadamente 154 milhões de toneladas, apesar da pressão de custos dos fertilizantes. Esse resultado refletiu parcialmente o fato de que o fornecimento físico, embora caro, não desapareceu por completo. Os agricultores pagaram mais, mas ainda receberam as entregas. A pergunta para 2026 é se uma perturbação no Estreito de Ormuz produziria um tipo diferente de escassez: não fertilizante caro, mas fertilizante indisponível.

Quase metade das exportações globais de ureia se originam no Golfo Pérsico. Se Ormuz permanecer parcialmente bloqueado, como as reportagens atuais sugerem, o Brasil perde acesso a um corredor de fornecimento que não pode ser facilmente substituído. O Oriente Médio é a principal fonte de ureia e amônia a preços competitivos para o mercado brasileiro. Fontes alternativas existem, principalmente Trinidad e Tobago, Argélia e Nigéria, mas sua capacidade de exportação não se equipara aos volumes do Golfo Pérsico.

O Que os Dados Mostram Sobre a Preparação

Quatro anos de dados desde a crise de 2022 pintam um quadro consistente. A dependência brasileira de importação de fertilizantes não mudou materialmente. Permanece em aproximadamente 85 por cento. A base de produção doméstica não se expandiu. As metas intermediárias do PNF para 2025 não foram cumpridas.

A abordagem do país para diversificação de fornecimento focou em medidas diplomáticas em vez de industriais. O Brasil manteve o comércio de fertilizantes com a Rússia durante todo o período de crise e depois dele. A diplomacia brasileira resistiu ativamente à pressão ocidental para isolar a Rússia economicamente, em parte porque o comércio de fertilizantes era importante demais para ser interrompido.

Essa estratégia diplomática funcionou em 2022 porque a perturbação era primariamente geopolítica e logística, não física. A Rússia queria vender, o Brasil queria comprar, e o desafio era navegar as sanções sobre bancos e transporte marítimo. Uma perturbação em Ormuz é fundamentalmente diferente. É um bloqueio físico de um corredor de navegação. Nenhum grau de flexibilidade diplomática resolve um estreito fechado.

A Lacuna Estrutural

O Brasil se encontra na interseção de dois fatos que definem sua exposição ao risco. Primeiro, é o principal produtor agrícola do mundo mais dependente de importação de fertilizantes. Segundo, sua produção agrícola é sistemicamente importante para o abastecimento alimentar global. Esses dois fatos juntos significam que uma perturbação sustentada no fornecimento de fertilizantes ao Brasil é, por definição, um evento de abastecimento alimentar global.

A crise de 2022 revelou essa vulnerabilidade em detalhes. O Plano Nacional de Fertilizantes a reconheceu explicitamente. A Cúpula de Fertilizantes e Saúde do Solo da África em 2024, as recomendações de políticas do Banco Mundial e diversos informes do IFPRI apontaram para a mesma questão estrutural: o sistema alimentar mundial funciona sobre uma cadeia de fornecimento de fertilizantes sem redundância.

A resposta do Brasil à crise de 2022 foi anunciar planos, manter relações comerciais existentes e contar com preços fortes de commodities para absorver o choque de custos. Isso foi suficiente para uma perturbação temporária. Se é suficiente para uma perturbação sustentada permanece não testado. Os dados dos anos subsequentes sugerem que a resposta, baseada no que foi efetivamente construído e não no que foi anunciado, é não.

Sources:

Fontes

  • ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos), estatísticas de consumo e importação de fertilizantes no Brasil
  • CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), pesquisas de custos de produção 2022-2023
  • Ministério da Agricultura, Plano Nacional de Fertilizantes, decreto de março de 2022
  • Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), pesquisa em insumos biológicos
  • CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento), dados de produção agrícola
  • Banco Mundial, dados de preços de commodities, "Pink Sheet"
  • IFA (International Fertilizer Association), estatísticas de comércio
  • IFPRI, informes sobre concentração no mercado de fertilizantes
  • Reuters, reportagens sobre comércio de fertilizantes Brasil-Rússia 2022-2024
  • Brazil Potash Corp (anteriormente Potássio do Brasil), atualizações do projeto Autazes
  • Petrobras, situação operacional das unidades FAFEN
  • Índice de Preços de Alimentos da FAO
  • Reportagens DEEPCONTEXT sobre perturbação no Estreito de Ormuz
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