Sediar o Mundo, Queimar o Pantanal: A Credibilidade Ambiental do Brasil em Julgamento
O que a COP15 da CMS significa para o cerrado, o Pantanal e as espécies que dependem deles
O Brasil convidou o mundo para discutir a proteção de espécies migratórias. O mundo chegou e encontrou os próprios corredores de migração do país anfitrião sob pressão da agricultura, do fogo e da expansão de infraestrutura. Para o leitor brasileiro, esta não é uma história de política externa. É uma história sobre o cerrado do lado de fora da janela e o Pantanal na divisa do estado.
O que aconteceu na COP15 da CMS
De 23 a 29 de março de 2026, o Brasil sedia a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres no Bosque Expo, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, às portas do Pantanal. A conferência reúne delegados de mais de 130 países para discutir a proteção de animais que cruzam fronteiras internacionais.
O Brasil aderiu à CMS em outubro de 2015. O território do país abriga cerca de 20 por cento da biodiversidade global, incluindo aves migratórias, golfinhos de rio, tartarugas marinhas, tubarões e peixes de água doce que se movimentam sazonalmente por vastas distâncias.
A delegação brasileira, liderada pelo Ministério do Meio Ambiente sob Marina Silva, apresentou uma mensagem dupla: reduções significativas no desmatamento da Amazônia sob o governo Lula, e novos compromissos nacionais de proteção de corredores para espécies migratórias.
A conferência gerou resoluções sobre conservação de tubarões, impactos da poluição luminosa em tartarugas marinhas e conectividade ecológica. O Brasil co-patrocinou várias delas. A questão prática é o que muda no terreno.
O Cerrado de que ninguém fala
A cobertura da mídia internacional sobre o desmatamento brasileiro foca de forma esmagadora na Amazônia. Para as espécies migratórias, o cerrado é igualmente crítico e muito menos protegido.
O cerrado cobre aproximadamente 2 milhões de quilômetros quadrados no Brasil central, abrangendo partes de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e outros estados. É a savana tropical com maior biodiversidade do mundo. Apenas cerca de 8 por cento do cerrado está dentro de unidades de conservação, com apenas 3 por cento sob proteção integral, comparado a aproximadamente 46 por cento da Amazônia sob diversas categorias de proteção incluindo terras indígenas.
Dados do INPE PRODES mostram que o desmatamento do cerrado no período de monitoramento 2022-2023 atingiu aproximadamente 11.022 quilômetros quadrados, o maior desde 2015. Soja, algodão e pecuária impulsionam essa expansão. Setenta e cinco por cento desse desmatamento concentrou-se na região MATOPIBA, cobrindo partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a nova fronteira agrícola onde vegetação nativa do cerrado é convertida em ritmo acelerado. No período 2024-2025, o desmatamento do cerrado caiu para 7.235 quilômetros quadrados, uma redução de 11,5 por cento.
Para espécies migratórias, isso importa diretamente. Aves migratórias neártico-neotropicais, espécies que se reproduzem na América do Norte e invernam na América do Sul, dependem de campos e áreas úmidas intactas do cerrado. O maçarico-do-campo e o triste-pia estão entre dezenas de espécies que usam o cerrado durante os meses de verão do Hemisfério Sul. Quando o campo do cerrado se torna monocultura de soja, essas espécies perdem habitat que utilizaram por milhares de anos.
Dados do MapBiomas mostram que a conversão de terras no cerrado continuou ao longo de 2024 e em 2025, com a agricultura expandindo para áreas anteriormente intactas pela fronteira MATOPIBA. A Embrapa projeta expansão agrícola adicional no cerrado baseada na demanda global por commodities.
O Pantanal em chamas
O Pantanal, compartilhado entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, é a maior área úmida tropical do mundo com uma extensão estimada entre 140.000 e 195.000 quilômetros quadrados. Seu ciclo sazonal de cheias cria um dos mais importantes habitats de aves aquáticas migratórias das Américas.
Em 2024, o Pantanal viveu sua pior temporada de incêndios da história recente. O programa de monitoramento de queimadas do INPE registrou mais de 1,3 milhão de hectares queimados até agosto de 2024, com junho sozinho registrando aproximadamente 440.000 hectares destruídos, um recorde para o mês. Condições de seca ligadas ao fenômeno El Niño e tendências climáticas de longo prazo reduziram os níveis de água a mínimos recordes, transformando a vegetação da área úmida em combustível.
Os incêndios afetaram habitats de reprodução e alimentação do tuiuiú, símbolo do Pantanal e espécie que depende de água parada para nidificação. Cabeças-secas, colhereiros e numerosas espécies de garças também perderam locais de nidificação.
A arara-azul, que depende de espécies específicas de palmeiras para nidificação e alimentação, perdeu habitat no Pantanal norte. Embora não seja uma migradora de longa distância, a espécie realiza movimentos sazonais dentro do bioma que o fogo interrompe.
Pecuaristas no Pantanal usam fogo para manejo de pastagens. Quando condições de seca coincidem com essas práticas, os incêndios escapam para a vegetação natural. A capacidade de fiscalização para regular práticas de queimada permanece limitada. O Ibama opera com aproximadamente 700 fiscais de campo ativos para todo o território nacional de 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
O boto e os rios bloqueados
O boto e o tucuxi realizam movimentos sazonais ligados ao ciclo de cheias da Amazônia. Durante a cheia, eles se movem para as florestas alagadas. Durante a seca, concentram-se nos canais dos rios.
No final de 2023, uma seca severa na Amazônia matou mais de 200 golfinhos, entre botos e tucuxis, no Lago Tefé e arredores, no estado do Amazonas, quando a temperatura da água ultrapassou 39 graus Celsius com picos atingindo 41 graus. O evento de mortalidade em massa atraiu atenção global para o boto, classificado como ameaçado pela UICN desde 2018.
Barragens hidrelétricas em tributários amazônicos alteram permanentemente esses padrões de movimento. A usina de Belo Monte no rio Xingu, concluída em novembro de 2019 com 11.233 MW de capacidade instalada, alterou os padrões de vazão na Volta Grande do Xingu, um trecho de rio crítico para espécies de peixes migratórios. O jaraqui, o tambaqui e outros peixes que migram centenas de quilômetros ao longo dos rios amazônicos para desovar tiveram suas rotas bloqueadas ou alteradas.
Para comunidades ribeirinhas que dependem de peixes migratórios para proteína e renda, esta é uma questão imediata de sustento. Pescadores na Volta Grande do Xingu relatam queda nas capturas desde que Belo Monte entrou em operação plena.
BR-319 e Ferrogrão: as estradas que cortam
Dois projetos de infraestrutura ilustram a colisão entre desenvolvimento e conectividade ecológica.
A rodovia BR-319 conecta Manaus a Porto Velho ao longo de aproximadamente 870 quilômetros de floresta amazônica em grande parte intacta. Originalmente construída nos anos 1970, a estrada se deteriorou e tornou-se em grande parte intransitável. A reconstrução conectaria o arco de desmatamento do sul da Amazônia à Amazônia central ainda intacta.
Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais indica que a pavimentação da BR-319 causaria um aumento de quatro vezes nas taxas de desmatamento na área circundante. Monitoramento por satélite já documentou 132.000 hectares de perda florestal ao redor da estrada. A estrada cortaria habitat usado por aves migratórias, onças-pintadas se movendo entre núcleos populacionais e inúmeras outras espécies.
O DNIT obteve uma licença prévia em julho de 2022 durante o governo Bolsonaro. A equipe técnica do Ibama questionou repetidamente a adequação do estudo de impacto ambiental, e a licença foi posteriormente contestada judicialmente. A reconstrução continua sendo uma prioridade do governo federal sob o argumento de conectar populações isoladas em Manaus.
A Ferrogrão, ferrovia proposta de 933 quilômetros para transporte de grãos de Sinop (Mato Grosso) ao porto de Miritituba (Pará), criaria uma rota mais eficiente para exportação de soja. O projeto corre paralelo à BR-163 pela zona de transição Amazônia-cerrado, cortando a Floresta Nacional do Jamanxim. O Supremo Tribunal Federal vem deliberando sobre a constitucionalidade do projeto, com o julgamento suspenso desde outubro de 2025. Esforços legislativos para avançar o projeto continuaram ao longo de 2025, impulsionados pelo lobby do agronegócio, com leilão previsto para setembro de 2026.
Para moradores de Mato Grosso e Pará, esses projetos representam empregos e integração econômica. Para os ecossistemas que atravessam, representam fragmentação. A tensão é real em ambos os lados.
Marina Silva entre o Congresso e a floresta
O retorno de Marina Silva ao Ministério do Meio Ambiente em janeiro de 2023 gerou expectativas entre ambientalistas. Seu histórico mostra progresso genuíno limitado pela realidade política.
Silva reconstruiu a capacidade de fiscalização que havia sido sistematicamente desmontada sob Bolsonaro. As operações do Ibama aumentaram. O desmatamento na Amazônia caiu aproximadamente 50 por cento em relação ao pico de 2022, chegando a 5.796 quilômetros quadrados no período 2024-2025, segundo dados do PRODES. O Fundo Amazônia, congelado sob Bolsonaro, foi reativado com contribuições da Noruega, Alemanha e outros doadores.
As restrições são estruturais. A bancada ruralista controla um grande bloco no Congresso. Em 2023, o Congresso avançou com legislação reduzindo proteções de certas unidades de conservação e restringindo a demarcação de terras indígenas. O presidente Lula, equilibrando sua coalizão, não vetou todas essas medidas.
O orçamento do ministério do meio ambiente, embora aumentado em relação aos valores da era Bolsonaro, permaneceu modesto diante do desafio de fiscalização. O Ibama contava com aproximadamente 700 fiscais de campo ativos em 2024, contra cerca de 1.800 em 2009. Esforços de recrutamento elevaram o número para aproximadamente 771 em meados de 2025, ainda muito abaixo do necessário para monitorar 8,5 milhões de quilômetros quadrados de território.
Sua condução da COP15 da CMS em Campo Grande deu visibilidade internacional aos desafios de conservação do Brasil e ao trabalho de seu próprio ministério. Se isso se traduz em instrumentos de política doméstica mais fortes depende de dinâmicas políticas que estão além do controle do ministério.
Isso sugere que os ganhos ambientais da era Lula, reais como são, permanecem reversíveis. Dependem da posição de uma ministra dentro de uma coalizão onde os interesses agrícolas detêm poder estrutural.
O que isso significa
Os compromissos do Brasil na COP15 da CMS incluem um plano de ação nacional para espécies migratórias na bacia amazônica. No momento desta publicação, os detalhes, fontes de financiamento, cronogramas e metas mensuráveis deste plano não foram divulgados.
O teste é específico e observável. Se a BR-319 prosseguir sem provisões efetivas de conectividade ecológica, se o desmatamento do cerrado continuar sem mudança política sistêmica enquanto o país promete proteção de corredores em conferências internacionais, se o ciclo de queimadas do Pantanal continuar sem manejo eficaz, a distância entre compromisso diplomático e realidade ambiental vai aumentar.
Para o leitor brasileiro, isso não é abstrato. O tuiuiú nidificando no Pantanal, o maçarico-do-campo chegando ao cerrado para o verão austral, o boto se movendo pelas florestas alagadas: são espécies cuja presença continuada depende de se as decisões políticas tomadas em Brasília e nas capitais estaduais refletem o que o Brasil prometeu ao mundo.
Os dados não mostram má-fé. Mostram um desequilíbrio estrutural entre as pressões sobre os biomas brasileiros e os instrumentos mobilizados para protegê-los. Os compromissos da COP15 da CMS são um parâmetro. Se o Brasil os cumprirá é agora mensurável.
Fontes
- INPE PRODES - Dados anuais de desmatamento, Amazônia Legal e cerrado, 2022-2025
- INPE PRODES cerrado, 2022-2023 (11.022 km²) e 2024-2025 (7.235 km²)
- Governo Federal Secom, outubro de 2025 - Dados de redução do desmatamento
- INPE DETER - Alertas de desmatamento em tempo real
- INPE Programa Queimadas - Dados de monitoramento de incêndios no Pantanal, 2024
- MapBiomas - Relatório Anual de Uso e Cobertura do Solo, análise do cerrado, 2024-2025
- ICMBio - Avaliações de espécies, boto-cor-de-rosa, arara-azul
- Lista Vermelha da UICN - Avaliação de Inia geoffrensis (boto-cor-de-rosa), Ameaçado desde 2018
- Observatório do Clima - Relatórios anuais de política ambiental, 2024-2025
- Embrapa - Projeções de expansão agrícola, região do cerrado
- Documentos oficiais e Notificação 2025/014 da COP15 da CMS, 2026
- Ibama - Relatórios de atividades de fiscalização, 2023-2025
- Brasil de Fato, setembro de 2025 - Dados de pessoal do Ibama
- Universidade Federal de Minas Gerais - Estudo de taxas de desmatamento da BR-319
- Observatório BR-319 - Notas Técnicas
- Fundo Amazônia portal de transparência - Dados de contribuições e desembolsos
- BirdLife International - Avaliações de aves migratórias neotropicais
- Norte Energia - Relatórios de monitoramento ambiental de Belo Monte
- Al Jazeera, CBC, NPR, Smithsonian - Mortalidade de golfinhos no Lago Tefé, outubro de 2023